por Kamila Guimarães Schneider
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e bolsista no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Mestra em Antropologia Social e graduada em Ciências Sociais. Contato: kamila.schneider@ufrgs.br.
A todo momento vemos notícias sobre o futuro incerto de nossa sociedade: mudanças climáticas, desertificação, eventos extremos em todos os cantos do planeta. Mas afinal, o que o comer e a comida têm haver com toda essa insustentabilidade e incertezas na contemporaneidade?
Por muito tempo, houve um pensamento disseminado, principalmente após a Revolução Verde1, de que para se desenvolver haveria a necessidade de um controle sobre a natureza e um domínio do homem sobre a terra. Assim, começaram a surgir inovações agrícolas e alimentares que visavam afastar a produção de alimentos dos que se alimentam, fazendo com que os alimentos perdessem suas características originais, sendo produzidas em indústrias e em laboratórios de pesquisa, permitindo com que se consolidasse firmas alimentícias de produtos finais, estabelecendo um sistema oligopolista2 de alimentos (Wilkinson, 2023). Em contraposição com as comidas caseiras, preparadas com ingredientes adquiridos diretamente de agricultores locais, os alimentos começaram a ser substituídos por produtos industrializados disponíveis nas prateleiras dos supermercados. Esses itens, além de possuírem maior durabilidade em relação às versões caseiras, frequentemente contêm uma série de aditivos químicos, como conservantes, corantes, aromatizantes, acidulantes, espessantes e emulsificantes. Muitos desses componentes são identificados nos rótulos por códigos e siglas específicas, tornando sua compreensão difícil para consumidores leigos.
Essas inovações tecnológicas na área de alimentos, que se consolidaram durante a Revolução Industrial e se intensificaram após a Segunda Guerra Mundial, impulsionadas pelo discurso de erradicação da fome, possibilitaram a preparação de alimentos de forma mais rápida, adaptando-se aos novos estilos e modos de vida. No entanto, os impactos ambientais e sociais dessas inovações, tanto no passado quanto no presente, têm sido amplamente criticados e são fortemente sentidos em todo o mundo. Conforme Benito e Diaz-Méndez (2021), essas transformações deram origem a uma série de contradições e dilemas no cenário global, como a coexistência da fome e a epidemia de obesidade; a escassez de alimentos e, simultaneamente, o aumento do desperdício alimentar; o fortalecimento da segurança alimentar devido à maior fiscalização, ao mesmo tempo em que cresceu o risco alimentar com o aumento da manipulação e do processamento dos alimentos até o consumo; e o maior acesso à informação sobre os alimentos, desde rastreabilidade até dados nutricionais, mas também o surgimento de inovações alimentares tão complexas que dificultam a plena compreensão dos produtos pela população em geral. Essas quatro dicotomias são fatores que contribuem para o enraizamento do mal-estar alimentar na sociedade (Benito; Diaz-Méndez, 2021).
Frente à essas e outras dicotomias presentes na contemporaneidade, em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) propôs aos países membros os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS), onde o desenvolvimento pretende articular os âmbitos econômico, social e ambiental, compondo também a chamada Agenda 2030. Essa agenda possui 17 objetivos com 169 metas a serem atingidas. A incorporação da sustentabilidade na visão de desenvolvimento produz o que Ricardo Abramovay (2021) denomina de “bolo de noiva” e conjuntamente, a sociedade e o meio ambiente, podem atingir os ODSs.
Este bolo, segundo o autor, é construído a partir de três camadas, sem a base do bolo formado pela biosfera, contemplando gestão sustentável da água e saneamento (ODS 6), combater a mudança climática e seus impactos (ODS 13), conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos (ODS 14) e proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres (ODS 15). A segunda camada que contempla a sociedade demonstra que o desenvolvimento sustentável almeja objetivos políticos, culturais e institucionais a partir de 8 ODS: a erradicação da pobreza (ODS 1), a fome zero (ODS 2), a boa saúde (ODS 3) e a educação de qualidade (ODS 4), a cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11), disponibilidade de energia limpa (ODS 7), paz, justiça e instituições fortes (ODS 16) e igualdade de gênero (ODS 5). A última camada do bolo refere-se à esfera econômica, preconizando o trabalho decente e crescimento econômico (ODS 8), A indústria, a inovação e a infraestrutura (ODS9), a redução das desigualdades (ODS10), o consumo e a produção responsáveis (ODS12). Por fim, a estrutura que liga todos os ODSs são as parcerias e meios de implementação (ODS 17).
A relação entre os ODSs e o sistema alimentar já é amplamente discutida em diversos trabalhos e pesquisas (Barcellos, 2020; Herrero et al., 2020; Tartaruga et al., 2019), e é possível observar que, dentre as metas dos ODS, destaca-se o direcionamento para o uso de novas tecnologias.

A projeção do aumento populacional até 2030, que é estimada em aproximadamente 8,5 bilhões de pessoas pela ONU3, e a crescente necessidade de recursos alimentares para atender a essa demanda, tornam-se elementos centrais no discurso que impulsiona a criação de novos alimentos. Nesse contexto, surgem as agtechs e as foodtechs, empresas que inicialmente se concentram em inovação disruptiva, mas que já nascem, mesmo que de forma indireta, fundamentadas nos princípios de sustentabilidade e na necessidade de pensar em inovação e tecnologia como ferramentas para reverter o quadro de insustentabilidade.
A partir dessa visão do desenvolvimento sustentável, as tecnologias alimentares permitiram com que se criassem dois posicionamentos distintos acerca do que se come e como se come. Assim, o alimento e o sistema alimentar tornaram-se um campo de disputas paradigmáticas frente aos dilemas sustentáveis contemporâneos da sociedade (Lang e Heasman, 2015). De um lado, os alimentos passaram a ser vistos cada vez mais como uma forma de alcançar a saúde ideal, com nutrientes e micronutrientes sendo consumidos de maneira calculada para atender às necessidades nutricionais diárias, conforme os objetivos estabelecidos por aqueles que os consomem. Esta forma de ver o alimento criou uma visão individualizada da comida. Assim, comer é um ato biológico e pode ser ‘controlado’ pelo comensal. Por outro lado, o alimento passou a reforçar o importante papel simbólico que desempenha, tornando-se protagonista de discursos e consolidando-se como um elo social e identitário cada vez mais forte. Por exemplo, dietas específicas, como a Vegana, Halal e Kosher, não são apenas escolhas alimentares, mas também expressam valores pessoais e sociais, refletindo atitudes em relação à ética, saúde e sustentabilidade.
Na perspectiva da visão individualista, o discurso do desenvolvimento sustentável volta-se para o consumidor, reduzindo a prática sustentável em reciclar, não trazendo mudanças expressivas relacionadas a meios de produção e distribuição de alimentos. O consumidor deve separar o lixo, comer mais legumes e consumir mais fibras, vitaminas, colágenos… (independente da forma que estas foram produzidas). Deve também higienizar os alimentos antes do uso (ou compra-los já higienizados e ensacados em plásticos e isopores). Quando a sustentabilidade é incorporada no âmbito da empresa, muitas vezes ela é terceirizada, contratando outras organizações para realizar essas funções e, em seguida, adicionando um selo de sustentabilidade em seus produtos. Um exemplo disso é o selo EuReciclo, que é concedido a empresas que compensam a produção de resíduos recicláveis, mas que, em alguns casos, podem apenas adquirir esse selo sem adotar mudanças profundas nos seus processos produtivos. Isso pode ser uma estratégia para melhorar a imagem da marca, mas, em alguns casos, a prática pode ser mais superficial, sem um compromisso real com mudanças sustentáveis profundas nos processos da própria empresa.
Ainda dentro dessa visão de desenvolvimento sustentável inovadora, podemos perceber o surgimento de um “modismo ecologicamente correto”, em que a ética animal e os discursos de preservação ambiental ganham destaque nas estratégias empresariais, dando origem ao fenômeno do greenwashing4. Empresas que utilizam a sustentabilidade como um elemento central em suas narrativas, com o objetivo de promover seus produtos e atrair consumidores, muitas vezes não implementam práticas sustentáveis efetivas em suas operações, seja nas esferas social, econômica ou ambiental. Essa abordagem visa mais à construção de uma imagem positiva do que à adoção de mudanças genuínas e profundas em seus processos.
Por outro lado, juntamente com as inovações tecnológicas na área de alimentação, podemos também notar uma mudança do alimento como papel de identidade social em que a comida, anteriormente como um marcador de distinção social entre classes e culturas (Rial, 2005; Montanari, Lima, 2009; De Castro, Maciel, Maciel, 2016), agora também representa uma marca em si, atrelando-se também a movimentos sociais e tornando-se uma luta de enfrentamento à um desgaste das formas de se fazer e consumir. A comida não se encontra apenas como um hábito ou forma de comer, mas também como uma representação de si para o mundo e uma forma de luta. Grandes exemplos são os casos dos movimentos vegano e vegetariano, que não são apenas escolhas alimentares, mas também posicionamentos éticos e políticos. Para muitos, adotar essas dietas é uma forma de resistência contra a exploração animal e uma maneira de promover a sustentabilidade ambiental. O slogan “Você é o que você come” cada vez mais não se expressa apenas no corpo, mas também nas falas e lutas, refletindo um posicionamento que se estende para além da mesa. Este movimento de representação de si a partir do que se come é mais intensificado a partir das redes sociais (Oliveira e Santos, 2023), onde o consumo de alimentos como produtos sustentáveis ou éticos, como no caso de campanhas veganas, se torna uma forma de afirmação pessoal. Por exemplo, influenciadores e celebridades que promovem o veganismo nas redes sociais não só compartilham receitas, mas também defendem ideais ligados ao respeito aos animais e ao meio ambiente, contribuindo para a construção de uma identidade pública associada a essas causas.
Os protagonistas das tomadas de decisões, antes fortemente atreladas à uma tríade do Estado, setor privado e cientistas, começa a abrir espaço para um papel ativo da sociedade civil (Benito; Diaz-Méndez, 2021). As demandas diretas vindas a partir da sociedade civil, estão sendo cada vez mais inseridas no contexto da governança. Essas demandas são expressas de muitas maneiras, como boicote5, buycott6 e até mesmo movimentos civis dedicados ao ativismo alimentar como os movimentos vegano/vegetariano (Colomé, 2018). Assim, o comer está se tornando uma forma de resistência, atuando como protagonista de movimentos sociais ao mesmo tempo que se torna um elemento fundamental de lutas, ampliando olhares para questões intrínsecas, mas que antes, eram invisíveis aos olhos dos comensais, como a questão ambiental, exploração do trabalho, a substituição da força de trabalho por drones e tecnologias ‘mágicas’.
Nesse contexto de disputas paradigmáticas do futuro dos alimentos e da sociedade que nos encontramos atualmente, um futuro incerto em que nanoalimentos7 são produzidos, ao passo que, um novo olhar ecológico no âmbito de inovações começa a despontar. O que será do futuro? Ainda não sabemos ao certo, mas com certeza, a comida tech será cada vez mais presente nos lares e nas mentes de quem a consome e a produz.

- A Revolução Verde, movimento que começou no meio do século XX, introduziu tecnologias agrícolas avançadas, como sementes de alto rendimento, fertilizantes químicos e mecanização, visando aumentar a produtividade agrícola. Isso impulsionou a produção de monoculturas em larga escala, focando na produção de commodities, especialmente soja, milho, trigo e arroz. ↩︎
- Sistema em que poucas empresas controlam um setor do mercado, influenciando diretamente preços e condições de venda. ↩︎
- Para mais ver: https://population.un.org/wpp/ ↩︎
- Greenwashing é uma prática de marketing enganosa em que uma empresa, organização ou marca finge ser ambientalmente responsável e sustentável, com o objetivo de melhorar sua imagem pública, enquanto, na realidade, suas ações e operações não são tão sustentáveis quanto afirmam. ↩︎
- Boicote pode ser definido como uma estratégia de engajamento e contestação política que se utiliza da rejeição ao consumo de determinados produtos ou serviços. Essa ação visa interferir em relações de poder percebidas como injustas em termos sociais, políticos e econômicos. ↩︎
- Buycott é uma estratégia de consumo contestatório que se caracteriza por um “consumo positivo”, onde os consumidores escolhem adquirir determinados produtos ou serviços. O objetivo dessa prática é incentivar práticas de produção, distribuição e consumo consideradas mais justas e éticas. ↩︎
- Nanoalimentos são alimentos ou ingredientes alimentares que incorporam nanotecnologia para melhorar suas propriedades, como sabor, textura, valor nutricional ou durabilidade. A nanotecnologia aplicada aos alimentos envolve a manipulação de partículas em uma escala nanométrica (geralmente entre 1 a 100 nanômetros) para otimizar suas características físicas, químicas e biológicas. ↩︎
Referências:
ABRAMOVAY, R. Um ‘bolo de noiva’ para celebrar a Semana do Meio Ambiente. http://ricardoabramovay.com/um-bolo-de-noiva-para-celebrar-a-semana-do-meio-ambiente/ Acessado em 4 de junho de 2021.
BARCELLOS, M. D. As contribuições da agricultura e da alimentação para a agenda 2030. Sistemas Alimentares no Século XXI: debates contemporâneos. Porto Alegre: Editora da UFRGS, p. 149-176, 2020.
BENITO, C. B.; DÍAS-MENDEZ, C. El Malestar com la alimentacion contemporánea. In: DIAZ-MENDEZ, C.; GARCÍA-ESPEJO, I (org). El Malestar com la alimentacion contemporânea. Espanha: Gijín, 2021, p. 18 – 38.
COLOMÉ, F. L. Consumo, política e engajamento: uma análise sociológica do consumo contestatório vegano no brasil e canadá. 2018. 300 f. Tese (Doutorado) – Curso de Sociologia, IFCH, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.
DE CASTRO, H.C; MACIEL, M.E.; MACIEL, R.A. Comida, cultura e identidade: conexões a partir do campo da gastronomia. Ágora, v. 18, n. 1, p. 18, 2016.
DE OLIVEIRA, D.C; DOS SANTOS, A. S. Culturas Alimentares Digitais: Movimentos sociais e ativismos alimentar no ambiente on-line. Cadernos de Campo: Revista de Ciências Sociais, p. e023006-e023006, 2023.
HERRERO, M. et al.. Articulating the effect of food systems innovation on the Sustainable Development Goals. The Lancet Planetary Health, v. 5, n. 1, p. e50–e62, 1 jan. 2021.
LANG, T; HEASMAN, M. Food Wars: The battle for minds, mouths and markets. Earthscan, London, 2015.
MONTANARI, Massimo; LIMA, Maria de Fátima Farias de. Comida como cultura. 2009.
RIAL, C.S.M. Brasil: primeiros escritos sobre comida e identidade. In: Antropologia e nutrição: um diálogo possível. 2005. p. 87-100.
TARTARUGA, I. G. P. et al. Mudanças tecnológicas e Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável: o papel das Instituições de Ensino Superior para o desenvolvimento regional. 2019.
WILKINSON, J. O mundo dos alimentos em transformação. 1. ed. – Curitiba: Appris, 2023.
